Tales of the dusty rock

Outubro 07 2009

Queixava-se uma das recém-chegadas que esta Ilha é tão árida no plano artístico como de paisagem.

Este é um dos defeitos apontados pelos poucos amigos que conheço na comunidade artística, tanto autóctones, como estrangeiros.

Eu, habituada que estou a analisar tudo em termos sociológicos  e políticos tenho uma certa teoria sobre isso, mas não invalida que os artistas que escolheram aqui fazer a sua vida decidam abandonar a ilha mais cedo ou mais tarde.

Na minha opinião, não se pode esperar que uma sociedade maioritariamente rural comece a desenvolver cinema experimental ou pintura de vanguarda de um dia para outro só porque é isso que se faz no estrangeiro.

Quem se vem meter numa aldeia (desenvolvida, mas aldeia) não pode esperar mentalidade aberta nem muito menos um público educado nos conceitos das sociedades pós-industriais.

E depois há a questão da colonização cultural.

Aqui na Ilha foi coisa que começou cedo, com a expansão das colónias das cidades-estado gregas. Perdeu-se a língua e o alfabeto cipriota, e, acima de tudo, perdeu-se a particularidade de algumas formas artísticas exclusivas da Ilha (como os trabalhos em ouro ou em estatuária que eram únicos no mediterrâneo) para começar a alinhar pelo diapasão do classicismo helénico.

O período do domínio ptolemaico também não ajudou, com os artesãos a alinharem pelo estilo egípcio.

A seguir veio a cristianização e aí...bem, sem comentários...

De modo que a expressão artística da Ilha foi sempre amordaçada, trabalhando com os símbolos e artes que eram aceitáveis pelos poderes dominantes da altura.

No século XIX, em vez de sofrer uma revolução industrial, modernizar-se e urbanizar-se (que, nas condições da altura seria impossível), a Ilha foi arrancada ao Império Otomano pelos Ingleses.

O período colonial Britânico caracterizou-se por uma falta de desenvolvimento económico. A Ilha foi tratada como uma base militar e não como um território que interessasse arrancar à pobreza. A população manteve-se rural, com baixos níveis de literacia.

Se esta Ilha tivesse tradição marinheira, tudo seria diferente.

Os contactos que se abrem a quem faz comércio com outras paragens, os mitos e perigos do mar, a nostalgia de terra e a constante inadaptação de quem nunca pára, ainda fornecem material de sobra para forjar bons artistas (vejam-se os Gregos e os Portugueses), mas não. Esta gente é apegada à terra e aterrorizada pelo mar, donde só vêm males, como os navios de conquistadores ou hordas de piratas sem piedade. 

Cada sociedade é produto da sua história, não se pode querer Nova Iorque em Beja.

Claro que é sempre preciso pioneiros que estourem com as visões instaladas. E eu espero que os meus amigos artistas consigam plantar um Oásis no meio de tanta seca...

 

 

publicado por parislasvegas às 08:04
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Setembro 15 2009

 

Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (porque não) porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor
Mero gozo
Sorvedouro caprichoso

No sopro do coração...

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do corpo num turbilhão
Sopra doido
E o que foi do corpo alado nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas, 
Raras
Raras
Raras

Corto em dois limão
Chego ao ouvido
Ao frescor
Ao barulho
Á acidez do mergulho

No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele
É bem isso
E apesar disso eriça a pele

No sopro do coração...

 

Letra: Sérgio Godinho

 

O Português é a minha língua favorita: pelas óbvias razões - das seis línguas que falo e escrevo, é nesta que penso, sonho e faço amor. É a língua que falo em casa, em que me exprimo com o marido e filhos, é a minha língua de berço, a minha casa. 

O Diário de Notícias faz uma homenagem à Sophia de Mello Breyner, pelos cinco anos da sua morte. Num dos textos, o filho Xavier diz: "já ninguém lê poesia". Se é assim, eu sou ninguém.

A poesia em português é essencial ao meu equilíbrio psicológico, seja um poema cantado do Sérgio, ou um dos fenomenais poemas da Sophia (que ainda sabem melhor quando lidos à beira do Mediterrâneo). 

Esta língua são as raízes que eu vou transmitir ao meu filho. Espero que ele também escolha o português como sua casa.

publicado por parislasvegas às 08:18

Agosto 03 2009

Vou morrer de saudades.

Espero que não faças a cabeça dos avós em água e que te portes bem.

Desculpa lá filho, mas ficas melhor nas praias do Algarve do que a atravesar metade do mundo com a mãe.

Com tanto virús e tantos perigos, fico mais descansada assim. E os teus avós também.

A mamã agora vai só alí até ao fim do mundo, mas já vem, está bem? e depois venho buscar-te e vamos para casa ter com o Daddy, a mana e o auau. Vai passar depressa e vais brincar muito com os avós.

 

Amo-te filho, muitos beijinhos e a mãma vai trazer chocolates quando chegar.

 

(ai que aperto...)

publicado por parislasvegas às 13:47
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Julho 24 2009

 Pois este blogue tem andado em silly season total. E para escrever parvoíces mais vale estar quieta.

 

Ultimamente tenho andado a derreter os neurónios com uma média de 44º à sombra diariamente é difícil ter ideias que não envolvam piscinas, praias ou ares condicionados. Para piorar as coisas, passei quinze dias deste mês reclusa numa aldeia no meio das montanhas, sem net, quase sem rede telefónica e com uma vida bastante agitada no domínio doméstico. Férias de mãe de família é assim.

 

A coisa até teria a sua piada, não fossem os putos propensos ao enjoo. Nós bem tentámos visitar vários museus, mosteiros, outras aldeias e praias escondidas, reservas naturais e afins, mas cada viagem acabava sempre num festival de vómito. Acabei por arranjar uns comprimidos homeopáticos que deviam funcionar mais psicologicamente que outra coisa, e os miúdos lá se iam aguentando, enjoados que nem uns perus, mas sem irem ao gregório. Uma festa.

 

Agora regressados à Capital e a gramar com um calor dos infernos não sei bem o que hei de fazer à criançada.

O que eu não percebo é o que vêm os bifes para cá fazer, com este calor os locais mal conseguem articular duas palavras seguidas e os malucos dos europeus do Norte vêm pôr-se ao Sol horas esquecidas, apanhar escaldões, insolações e Gripe A, tudo seguido. Não vejo a piada de férias assim, mas já quando estava em Portugal não via a piada dos escaldões do Algarve. Devo ser eu que sou esquisita por ser do Sul. 

 

Ainda ontem alguém me dizia: "mas não estás bronzeada, já foste de férias??". Pois já fui, mas coisa que não me apetece é apanhar uma carrada de melanoma, nem mesmo ficar toda engelhadinha à lá Cinha Jardim. Acho horrível as mulheres que se torram ao Sol e ficam todas encarquilhadas. Não é o meu estilo. Chamem-me provinciana, mas para mim é parolo andar a trabalhar para o bronze só para mostrar que se tem dinheiro para ter ido de férias. Parolo.

 

E agora vou ali ligar o ar condicionado, que é meia-noite e ainda estão 38º. Nem quero ver a minha conta de electricidade (e ainda não chegámos a  Agosto....).

publicado por parislasvegas às 21:29

Junho 23 2009

E os diálogos imaginários do costume.

Apesar de todos os face liftings e maquilhagem das fachadas, boutique-hotels e restaurantes design, Lisboa continua a ser a velha senhora de sempre, com os mais de oitocentos anos de existência e cansaço a transpirarem em cada esquina.

É verdade que Lisboa está a tornar-se mais ecológica, mais limpa e mais bonita, mas nenhum equipamento público altamente high-tech pode esconder a verdadeira essência da cidade que continua a ser, acima de tudo, um Porto, com marinheiros e putas, estrangeiros exóticos, vagabundos profissionais e vigaristas.

Não há como não amar a vagabundagem enconstada às igrejas manuelinas, o contraste das tias finas que passam enquanto as senhoras vestidas de preto rezam a chorar dentro das igrejas, os africanos vestidos de mil cores, os camônes côr-de-lagosta a petiscar nas esplanadas e os chatos engravatados  a caminho dos bancos.

Por mais que a vida nos mude, a mim e a Lisboa, esta é uma história de amor que vai durar enquanto eu respirar.

 

Agora outra coisa completamente diferente. O que vai na cabeça das mulheres portuguesas??? Alguém me explica?? Será que a crise económica tem obrigado as pessoas a comprarem só metade das roupinhas?? Não percebo o que passa pela cabeça das quarentonas que tenho visto, metro e meio e 70 quilos, vestidas com calças curtas e blusas sem costas ou (pior ainda, blharrrgh) pelo umbigo. As crises de meia idade andam a bater forte no pessoal e nem sequer percebo bem porquê. Lisboa deve ser uma das poucas cidades do mundo em que mais se vêem casais de mulheres de meia idade com homens muito mais novos. Não há explicação a não ser o mau gosto genético. Salve-se quem puder.

 

 

publicado por parislasvegas às 13:03

Junho 12 2009

Ao contrário do que possa parecer, as restricções de segurança nos aeroportos facilitam a vida aos passageiros. Ora vejamos:

 

Não posso levar comigo os cremes para o rabo do bebé, não posso levar cosméticos para mim, não posso levar as doses de leite e água que o bebé bebe agora (só até 100 ml), não posso levar ténis, nem botas, não posso levar cinto (experimentem tirar um cinto com um bebé ao colo).

 

De maneira que, alimento o puto com aquilo que há à venda nos bares dos terminais de escala, que remédio. Ele sobrevive e eu também, não carrego com quilos extra e não passo a viagem cheia de calor nos pés. Por outro lado, ando sempre a mostrar as cuecas ao pessoal, mas, hei, não se pode ter tudo...

 

Ps - e é rezar para o miúdo não fazer nenhuma daquelas cagadas que o põem todo assado, mas isso ainda não é assunto para este blog.

publicado por parislasvegas às 15:58
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Junho 12 2009

Bom mesmo é ver o mundo a derreter lá fora e nós os dois sentados no sofá, a curtir o ar condicionado e a comer cachos de uvas chilenas.

 

Bom mesmo é conversar durante horas bi,blá,blá, mamã e brum brum, sem nexo e sem sentido.

 

Bom mesmo é adormecer colados, com festinhas no cabelo e beijinhos nas costas.

 

Bom mesmo é passearmos os dois, chapinhar na piscina dos bebés e depois ir almoçar à esplanada como os grandes.

 

Sou, de facto, uma pessoa muito teimosa. Demorou tempo até perceber que estes são os melhores anos da minha vida, o resto, carreira, dinheiro, prestígio, que se foda, o que eu quero é ser mãe.

A melhor que eu consiga ser, porque eu tive essa opção e essa sorte.O meu filho, coitado não tem escolha e se eu falhar, continuo a ser a única mãe que ele tem.

Por isso nesta "profissão" não há períodos experimentais, nem há espaço para cometer erros graves.

É a melhor coisa que eu já fiz na minha vida. E a mais difícil também.

publicado por parislasvegas às 13:36

Junho 10 2009

 Há 8 anos atrás, o 10 de Junho era só um dia em que eu ia à praia sem os meus amigos militares, que estavam sempre lixados nos deveres de paradas e celebrações.

De há 8 anos a esta parte, o 10 de Junho transformou-se num dia de trabalho, mas também de orgulho, de gente a falar a minha língua com um sotaque estranho, de gente a comentar as qualidades que temos, mas que ninguém parece ver, pelo menos nesse rectângulo, à beira-mar plantado.

E agora, que para mim este dia já passou, mas para vós, ainda é dia, digo eu, talvez com engano, viva Portugal!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

p.s.- às vezes também me dá para isto....

publicado por parislasvegas às 22:58

Junho 05 2009

 Com o homem de regresso a casa, temos apenas uns diazinhos para curtir a companhia um do outro e eis que zarpo eu a seguir.

 

E depois admiro-me de o nosso filho ter comportamentos estranhos...Talvez com mais estabilidade ele se abstivesse de estrangular os meninos da escola.

 

Tenho mesmo que pensar em parar com esta vida.

publicado por parislasvegas às 15:12

Maio 27 2009

Percebo e partilho toda a indignação que tenho lido nos jornais e nos blogues portugueses em relação ao caso da Alexandra. Mas é preciso entrar em nacionalismos estúpidos? é preciso dizer  que os russos são todos uns brutos, alcoólicos e as russas todas umas prostitutas embebidas em vodka? Não haverá más mães em Portugal? 

 

Gostaram do que viram quando viram os ingleses a denegrir Portugal e os portugueses por causa do caso da Maddie? Então?? Mas que merda vem a ser esta??

 

As pessoas deviam concentrar-se no pouco que (infelizmente) se pode fazer por esta menina e absterem-se de alarvidades, os russos são como todos nós: há-os bons e maus, porcos e limpos, bêbados e sóbrios, trabalhadores e preguiçosos. A grande maioria deles são como a grande maioria dos portugueses: preocupados em trabalhar para dar de comer aos filhos. Because the russians love their children too. Vamos lá a deixar-nos de xenofobias que isso nem parece nosso.

publicado por parislasvegas às 15:08

Histórias de uma portuga em movimento.
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