Histórias de uma portuga em movimento.
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Abr 07
publicado por parislasvegas, às 15:01link do post

 

 

 

Segundo os registos, faz esta semana, no dia 7, 501 anos que nasceu o Basco Francisco Xavier, num castelo no sopé dos Pirenéus . Desde muito cedo, esta fraca figura, loira de olho claro, manifestou mais habilidade para a filosofia do que para as armas, tornando-se o único dos filhos da Casa de Xavier a tomar o hábito.

 

Tenho pela figura deste jesuíta, místico e teimoso, uma admiração enorme, mais pelos seus feitos temporais do que pela obra religiosa. Mas mesmo neste segundo aspecto, teremos que lhe reconhecer grande coragem e iniciativa pela criação (ou co-criação) da Ordem dos jesuítas que ao contrário de todas as outras, apostava na educação dos povos e na evangelização através do respeito pela cultura alheia e do mútuo conhecimento .

Neste aspecto, a aliança dos jesuítas com o Reino de Portugal ( e que acabaria por ter consequências desastrosas para o nosso Império) foi a primeira empresa globalizante, que incluía capitalismo, dominação cultural, mas também promoção do contacto inter-racial , de preferência pelo casamento.

 

Os "casados" figuras centrais da nossa colonização, eram os varões tugas  que se juntavam com mulheres "locais" ganhando assim "casa" oferecida pelo Reino para legar às gerações futuras, essas sim, já convenientemente misturadas de raça e língua mas (oficialmente) cristãos puros e duros. Esta prática, única e inteligente num país sem recursos demográficos e, logo, sem recursos militares. Esta política, pode parecer paternalista e altamente racista,  à luz dos valores do  século XXI. Analisando a coisa dentro das mentalidades da época,  até traduz um humanismo único que ficou conhecido como marca do reinado de D. João III.

 

Mas já nos desviamos de Francisco, o Basco, que revelava talento para a filosofia e teologia.

Os pais resolveram enviá-lo para a Universidade de Paris para estudar estas matérias e Francisco frequenta o colégio preparatório de Sta Bárbara, nessa altura dirigido por um português e  por onde passavam todos os crânios da Península Ibérica. 

Em Paris, onde é hoje o bairro de Montmartre , Francisco vivia numa residência com Ignácio de Loyola , um conterrâneo alucinado, convencido que Jesus lhe tinha confiado a missão de partir por esse mundo fora espalhando a palavra e, já agora, ensinando latim, matemática e astronomia. Juntos fundam a Ordem dos jesuítas.

 

Após uns anos passados em Roma, a tratar da papelada necessária para se instituir uma Obra religiosa (inicialmente com apenas 7 membros com objectivo de calcorrear o planeta todo!!) e Francisco já recebia mensagens do divino para partir em missão e espalhar a palavra. Se e verdade que Deus escolhe os melhores, pois não Se há-de de dar ao trabalho de tanta triagem para depois os deixar à secretária a tratar da burocracia do Vaticano. Perante tão insistente chamamento, Francisco deixa Roma com destino à Terra Santa.

 

Quis o destino, que a segunda cruzada falhasse redondamente, quase tão desgraçadamente como falhou a primeira, o que impediu a Ordem dos jesuítas de se instalar em Jerusalém, como planeado.

 

Entretanto, o nosso D.João III, sabendo que os Impérios se construem com base em muito mais do que somente a espada, pede ao Papa que lhe dispense seis frades, sim senhor pode ser desses novos que agora aí tendes e que se dizem missionários. Quero ver quantos desses se aguentam entre marinheiros e piratas, enjoos e escorbutos , seis meses sem ver terra firme.

 

E Francisco não apenas se aguentou, como lhe ganhou o gosto. Partiu para Goa, com o Vice-Rei Martin Afonso de Sousa, onde instalou a base da Ordem no Oriente.

 A partir daí viajou para Macau, andou pelo Sri Lanka, Malásia e Japão, antes de regressar novamente a Goa. Instalou comunidades cristãs em todos estes países, expandiu a ordem dos jesuítas (únicos admitidos pelo Imperador da China na sua corte, pelo seu conhecimento científico e filosófico e únicos admitidos no Japão) e implantou solidamente alguns princípios que seriam seguidos no futuro pela sua Ordem, nomeadamente, o do sincretismo entre os cultos católicos e os ritos locais, chamados "pagãos". Isto tudo, em 10 anos, numa altura em que se demorava meses "só" de Goa a Macau, em águas infestadas por piratas.

 

Morreu, numa ilhota perto de Macau (que mais tarde se tornou pertença dos ingleses) enquanto aguardava autorização de entrada no Continente Chinês. Nessa, altura, Francisco Xavier tinha conseguido ser integrado numa Embaixada de Portugal e contava deslocar-se a Pequim para aí basear uma comunidade. Partiu cedo, aos 46 anos (em 1552) vítima de malária. Imagine-se que viagens mais não teria empreendido se para isso tivesse tido tempo.

 

Ele próprio homem modesto, escrevia de seu punho desmentindo hipotéticos "milagres"  que o povo lhe imputava - um deles (do qual ficou mito até hoje) muito o irritava. Dizia-se que sabia falar todas as línguas, como se o Espírito Santo lhe descesse sempre que pregava ao povo. Francisco não se cansava de repetir que essa história era uma enorme mentira- entendia-se bem com toda a gente, sim. Como todos nós globetrotters " nos entendemos - utilizando a linguagem gestual...

 

Das viagens de Francisco, ainda hoje restam memórias, nomes de família iguais ao meu e ao teu, relicários doidos em igrejas no meio da selva tropical, arte sacra com Santos negros e com olhos em bico, enfim, uma mestiçagem da alma que tive oportunidade de ver não só em Macau, mas também na Malásia, e até na Tailândia, nas pequenas casas de espíritos à porta dos cemitérios católicos, onde habitavam serenamente uma imagem do Buda e outra de Nossa Senhora de Fátima.  

 


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